No fim dos dias, sobram os restos. O que deles fazemos fazem de nós o que somos.

Pode a ausência encher o vazio dos dias

Se o amor não o faz

Pode a loucura ter a certeza do certo

Quando incerto é o seu caminho

Pode a razão sobrepor-se ao vento

Que percorre os cantos escuros da alma

Pode o escuro acarinhar a luz

Que se desprende do teu olhar

Pode a paixão prender-me à terra

Quando tudo me pede que não

Pode o querer ser mais forte

Que a espada que me fere a pele

Pode o sonho tingir as noites

De ilusão e pensamentos dispersos

Pode o equilíbrio encontrar o norte

que se evadiu para o sul

Pode a dor enfim encontrar a paz

Quando a tua ausência não o faz

 

publicado por AclaQue às 11:40 | link do post

falam de dor

que misturam com amor

falam de amor

quando afinal só percebem a dor

falam de amor sofrido

quando o julgam perdido

falam de sofrimento adiado

apenas porque acham ter amado

falam de dor e de amor com o mesmo ardor

feito de tanto

menos de amor

incapazes de sentir para além

da sua dor

viciam o amor

que lhes é oferecido

porque nele julgam resgatar uma qualquer dor

falam como se fossem donos do amor

só porque o são da dor

falam de tudo

esquecendo o importante

e assim calam o amor

que se refugia atrás de palavras

onde só existe

o silêncio

da dor

publicado por AclaQue às 11:20 | link do post


 

o vento tornou-se

no seu grande aliado

em tempos de tempestade

porque o mundo

enlouquecia

o vento inquieto

descansava dentro dele

habitando

os cantos abrigados

onde o sangue

se escondia

inspirado

desassombrado

sorria

das gentes

que dele fugiam

o vento

inquieto

nunca sorria

porque dentro dele

sabia

toda a inquietação

do mundo

que ruia, cedendo

cansado

ao que o enlouquecia


 

publicado por AclaQue às 21:34 | link do post

 

espreita-me

serenas, ambas

ela, que me tenta

eu, que a nego

já nos cruzámos

num  rendez-vous privado

as duas,  lado a lado

deu-me a mão

abraçou-me a alma

soprou-me segredos gelados

lutámos ou é apenas o meu sonho?

não me quis

não a segui

deixou-me a sós

com o desespero

como herança

incauta

há muito que troço dela

desiludida

há dias em que acredito nela

descrente

há horas em que a desejo

maa hoje, serena

respiro os minutos da paz

à sua chegada

de olhos bem abertos

irei com ela

publicado por AclaQue às 21:12 | link do post

 

que horas são?
perguntas-me desse lado
sem saber que a hora da razão
quer sentar-te a meu lado

à hora de ponta
a multidão só
no meio da gente
que se agarra a uma hora só
 
nas horas tardias
suspensas no tempo
escondem-se as horas mortas
perdidas na sombra

sombria a hora fatal
minutos que muito a mal
trocam com os segundos
o seu papel principal

solitária, longa e perene
quando a hora da morte
se torna a sua hora
num uivo de dor
 
só na hora incerta
revoltas-te de
uma vez só
por saber que a hora é certa

 

publicado por AclaQue às 23:32 | link do post

subitamente meu amor

o pássaro cantou

uma estranha melodia

que me fala de ti

diz-me

porque não me dás a mão

e me levas daqui?

embala-me pela noite

porque não cantas

para mim?

porque não me sacodes

os pesadelos

e me levas daqui?

estranha passagem

a  que leva o medo

para junto da paz

sem pressa

quando acredito

meu amor

subitamente

nos dias novos

como na canção súbita

que o pássaro traz

 

publicado por AclaQue às 01:42 | link do post

sonho com a tristeza

a despir-se

numa dor calma

sonho com a noite feita de paz

e de  amor

tantas vezes adiado

sonho, mas minto porque o sonho

não é mais que uma

vontade que cresce, selvagem

revoltada por

cada momento a mais

nesta cruzada

sem chegada

porque nunca parti

para além do sonho

sonho com o sono

que me devolverá

o que me pertence

os bocados em que me doei

todos pedem algo

todos querem algo

quem me dá

o  que eu perdi

quem me dará a mão e embalará

como eu não consegui embalar

os nossos sonhos

do outro lado do rio

de águas

turvas

em que nada vive para além

dos pesadelos dos fantasmas

nele afogados

em redemoinhos

do meu sonho

sonho louca

talvez

por querer tanto

que esta dor

morra de vez

crente olho para o céu

e  procuro por ele

ele que nunca veio

que me roubou a alma

mas  não o vejo

nega-me a sua mão

sonho com o futuro

no qual eu  possa descansar

num longo e solitário sono

feito de sonhos só meus

publicado por AclaQue às 12:25 | link do post

Estás quase a terminar 2010. Não foste o melhor ano do resto da minha vida, mas para ser  justa, também não foste o pior. Tiveste coisas muio boas, algumas excelentes, outras menos boas, e na verdade, há desgostos que não merecem ser recordados…estás a terminar, e deixaste tanta marca em mim, que já não sou, e ainda bem,  a mesma pessoa.

 

Ainda assim, sabes como sou, tenho alguma resistência em olhar para trás da mesma forma que tenho alguma relutância em admitir que vou mudar apenas  porque vem aí um ano novo. Prefiro continuar a acreditar que enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar. E já aprendi a fazer valer cada dia neste mundo, já que mil em outro qualquer, de nada me valem...


Para a viagem  tenciono apenas levar o que me faz falta …e largar o que está a mais…Na bagagem, os amigos leais, a esperança e o amor. Levo os risos das minhas crianças e as birras também, para não me esquecer nunca que crescer é um processo em família.

 

Não posso esquecer de levar também a liberdade, e a vontade de aprender sempre, mais, porque mesmo assim, sei muito pouco. No fundo,  bem aconchegados, vão os cheiros e os sons dos locais e das gentes que me construíram. A força e energia para ultrapassar os obstáculos, e a insanidade que nos dias negros me salvarão da agonia. Estou pronta para ti 2011…estarás tu para mim? ...

publicado por AclaQue às 19:55 | link do post

cuidado com a doçura das

coisas

que se confudem com sonhos

cuidado com a bravura

dos homens

que ignora a mortalidade da alma

cuidado com o ciclone que não

cala os silêncios

do mundo

cuidado com a torrente sem fim

do amor que separa mais

que une

cuidado com o tempo

quanto mais passa mais somos

preciosos

cuidado com os sorriso que sobram

da boca aberta num triste

grito

cuidado com a imperfeição das coisas

que matam o momento

em que a ave voa contra

o vento

publicado por AclaQue às 17:04 | link do post

 

sacode os sonhos dos cabelos
quer sorrir uma vez mais

demora o olhar pelo mar

perde-se no tempo

mas nunca esqueceu

a esperança
de um dia se revelar
fez  tudo o que podia

para todos surpreender
acabou  por ser

a mais surpreendida

com medo de entrar no mar

é lá que gosta de estar
tem segredos escondidos

de si mesma

e este é o primeiro segredo
que nunca entendeu

o que estava mal
e hoje do que se lembra

é da doce lembrança
de uma personagem inventada
para se proteger

do caos do mundo
alguma coisa em si se partiu

ficou mal construída
o que em si mais procura

é reconhecimento
fez tudo para não o alcançar
amar, amar, amar
de repente tudo é só isto
e o isto tornou-se o seu todo
perdeu-se dos pedaços dela
esqueceu-se dos outros
e é como se de repente

todos os seus receios

se tenham tornado reais

porque de tanto os sonhar

são agora os seus melhores amigos
e aquela clarividência

que sempre achou possuir
não passa de um terrível legado
uma faca afiada
que mata

tudo o que tem dentro
incapaz de sintetizar
não por não o saber
mas por medo

de que nunca

consiga dizer
o tanto que lhe cabe dentro
sacode os sonhos dos cabelos
quer sorrir uma vez mais

demora o olhar pelo mar
sacode os sonhos do cabelo

vai sorrir uma vez mais

publicado por AclaQue às 01:02 | link do post



quem escreve cala

silêncios ensurdecedores

gritados aos elementos

que lhe saíram em sorte

ao vento

sussurra

preces que soam a lamentos

pelo mar escorrem-lhe

as lágrimas que nunca chorou

do sol receia

a brasa que incendeia a alma

ingénuo escritor que julga

achar no seu amar

os segredos que quer cantar

á terra vai tentar

encontrar

o que deixou no seu ventre perdido

e em som de lamento

é assim que nasce

o seu escrito

com sangue tinge as palavras

que deixa escapar

sem conter

o silêncio que ensurdece

quando ouve os elementos

pois sabe que sem o seu grito

o vento, o mar, o céu, tudo é

o mesmo grito

apelo que soa a tormento

de saber que sem

dor

todo o seu amor

é vão

rasgam-lhe a pele

feridas que nunca soube

se vinham de fora ou de dentro

porque dentro dele

chorava o mesmo lamento

e de tanto se lamentar

perdeu a força do mar

publicado por AclaQue às 18:29 | link do post

o poeta sonha

nas entrelinhas dos pesadelos

banha-se nas águas

do ódio e desilusão

cresce com as dores alheias

e pelas suas

nasce o poema

à medida da vida

sem sentido

com duplos sentidos

procura no poema

um sentido só

da vida absoluta

ferve de emoção

em bruto

como os diamantes raros

que nascem em montanhas

a que poucos

conseguem chegar

o poeta pinta com palavras

o que os corações gritam

e na alma do poeta

que pesa toneladas

habitam

a mágoa universal

pedaços de algodão doce

que escorrem

do sorriso

de uma criança

e a sabedoria

que percorre as rugas dos velhos

o poeta é uma eterna criança

que não se conforma

com o cinismo

dos deuses

que não querem sonhar

que desistiram de acreditar

porque o poeta

chora nas palavras

a terna esperança

da palavra que o salvará

de um mundo

que sabe ser sem salvação

publicado por AclaQue às 18:10 | link do post

ontem não te vi

nem anteontem

há muito que não sei

de ti

os dias passam

as horas contam

e eu

sem saber de ti

pergunto ao vento

onde moras

mas a aragem é egoísta

e guarda para ela

a tua morada

sondo

o arco iris

que atravessa

as grades

desta cela

abraço cada cor

na esperança

de ter

achado

mas continuo sem

te ter aqui

lá fora

a neve cai

reparo que é cedo

para nevar

em pleno Agosto

só o sol

reina

confusa percebo

que não  é neve

o que os meus olhos vêem

são fragmentos

de almas

pequenos fantasmas

que me perguntam

também

por ti

não sei o que responder

se ontem não te vi

e procurei

no cheiro da erva húmida

no som do pintassilgo

na labareda

que me queima

a alma

porque amanhã

não saberei de ti

publicado por AclaQue às 22:19 | link do post

despertei a meio da noite

podia ser de um sonho

ou pesadelo

nunca o saberei

acordei sem voz

mas com lágrimas

nas palavras

resgastadas ao

sonho ou pesadelo

jamais o saberei

no fim da noite

as palavras

sem som

mas com lágrimas

escorreram

para um lugar secreto

tão secreto como o ruído

dos rios

do vento

e do riso das crianças

que entram pelo

meio da noite

num sonho

ou num pesadelo

nunca o saberão

nas veias tenho sangue

e palavras

que escorrem como as

lágrimas que se evadem

a meio da noite

num sonho ou pesadelo

por não saber

se tenho palavras minhas

porque uso

as dos outros?

publicado por AclaQue às 13:38 | link do post

dias assim

em que não me descolas

da pele

quando o teu cheiro

viaja dentro de  mim

tenho dias assim

em que a tua voz

me cala

ao ritmo

de uma canção encantada

leve e suave

como uma gota de chuva

que cai sobre mim

quero mais dias assim

em que a tua luz

me penetra

no tempo que dura

um longo suspiro

que sai de mim

assim

publicado por AclaQue às 08:33 | link do post

sinto a tua falta

a de hoje

que somo à de ontem,

e a de amanhã

a que somarei a de hoje

sinto tanto a tua falta

sentindo que também

nesse lugar onde estás

sentes a minha

sentimos ambos

é a nossa história

e será sempre assim

fomos heróis

somos

e é por isso

que me sinto tão só

sem ti

publicado por AclaQue às 02:20 | link do post

morri

em vida

respirava

e lutava

como os demais

sorria se era para sorrir

e até ouvia

quando era para ouvir

só eu sabia

que morri

os outros

como dizer-lhes

que esta não sou eu

porque é a morte

que finge ser eu

morri

numa morte adiada

cheirada, tocada

os outros também a viram

mas viraram-lhe as costas

e a morte riu-se deles

enquanto me limpava as lágrimas

e me contemplava

morri

é um segredo só meu

para os outros estou viva

para mim

sei que já não sou eu

mesmo que continue a crer

que há um sitio secreto

neste mundo

cujo mapa eu  perdi

o que importa

se eu sei que já morri

publicado por AclaQue às 02:01 | link do post

esperança, amor e calor

era o que tu trazias

 

eu não

sabia

 

contigo

veio também

uma tempestade

de genuinas promessas

ficámos

unidos

no tempo

do amor

que um dia

fugiu

e tu

partiste

num dia de calor

não sei a que horas

na despedida de nós

de mãos dadas

corações

em chama

abraçamos o desespero

 

enquanto a tempestade

nos torcias os ossos

e revirava a alma

não te apoquentes

gritaste

há um tempo certo para´

a esperança

o amor e o calor

 

era o que tu dizias

e eu sorria...

 

publicado por AclaQue às 00:12 | link do post

insatisfeita

para te querer

assim, satisfeita

 

perdida

em busca da luz

do fim do caminho

 

indecisa

do meu ser

decidida neste saber

 

espero

esquecendo

o que ensinei

 

sou como tu

o mesmo sangue

o mesmo mar

 

 

o teu olhar

tem sombras

por alcançar

 

procuro uma razão

anseio

quero mais além

 

parto

não sei

fico, porque amei

publicado por AclaQue às 00:13 | link do post

silencio que quero escutar

o som da terra e do  mar

genuínos elementos

que honram  a natureza dos sons puros

silencio que quero gritar

como o vento grita

raiva em fúria

contida em sopros rendidos

silêncio que quero sentir

o pulsar dos sentidos

cegos e perdidos

que me percorrem o sangue

silencio que quero ser

como a fera que livre

sem rumo, ou direcção a tomar

nada a pode acalmar

silencio que quero cantar

melodias que trago presas

este grito que teima em tardar

numa toada sem sentido

silencio que quero ficar

aqui, ali, ou além

leve  como uma bola de balão

que teima em voar

silencio que quero tocar

o céu, a loucura e o infinito

aliados incondicionais

quando tudo já for grito

publicado por AclaQue às 01:07 | link do post

Escrevo

Nunca sei bem porquê

Mas escrevo

À medida dos meus dias

 

Os dias

Regras. Os dias também as têm

Assim como a escrita.

A mesma que me sai todos os dias

 

Escrevo

Para afugentar o medo

Que cerca as palavras

E as seduz, traiçoeiro sem escrupulos

 

Palavras.

Nunca viram a cara à luta

Corajosas, elas são

O meu antídoto para os dias

 

Medo dos dias. 

E das regras que chegam com eles.

Os dias também têm medo

As palavras, penso que não…

publicado por AclaQue às 23:51 | link do post

olho para o espelho…

o que vejo?

o cansaço a embaciar o reflexo

sem nexo, sem brilho, meio gasto

olho para o espelho…

olhos fechados, rugas rasgadas pelo abandono

o desamparado brilho que turva o fundo do olhar

olho para o espelho

quem vejo?

um amontoado de pele e ossos

uma mulher

sangue e emoção

tingem-lhe a pele

que a protege do mundo hostil

como uma arma apontada, que ninguém vê

só ela

olho através do espelho

que vejo?

sombras que franqueiam as portas

abertas, sem pedir licença

entram na sala onde está o espelho

e nele escrevem palavras,

muitas palavras, regras, e verdades alheias

sem olharem para a mulher

que de frente para o espelho

arma apontada

à pele tingida

se esvai em sangue e emoção

numa penitência inútil

num mundo repleto de

espelhos rachados

publicado por AclaQue às 17:00 | link do post

E se o mundo começa, todos os dias, nas voltas da vida, não duvides que o mundo acaba, todos os dias, às voltas com a vida... a bem ou a mal...

publicado por AclaQue às 13:18 | link do post

se ao menos

houvesse um dia

em que acreditasse

na fé dos homens

e na sabedoria dos deuses

pudesse

eu crer

no que não existe

e mesmo assim saber

que as nossas mãos

se irão tocar

ávidas de gestos

que não viveram

pudesse eu saber

que nos vamos reconhecer

pela certeza

que me corre no sangue

pudesse eu acreditar

que choraríamos juntos

em comunhão

pelos séculos

de silêncio e de dor

pudesse eu ter fé humana

e sabedoria divina

para atravessar

a linha que nos separa

da paz do reencontro

em que as coisas da vida

se entrelaçarão na morte

se ao menos houvesse um dia

capaz de curar

a chaga que me rasga a alma

numa oração sem fé

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 


 

 


publicado por AclaQue às 13:39 | link do post

 

 

eu não me importo

que o sol queime

os medos

inquietos que persistem

em viver no mundo

eu não me importo que os loucos

desprezem a razão

quando a alegria é um engodo

para o purgatório

das mentes dessasossegadas

cegas pela obsessão

da busca de um caminho

vedado á verdade

há muito perdida

eu não me importo

que o sangue pare

de correr

entusiasmado

pelas minhas veias

porque mesmo que a vida

prometa uma cura

ou que o céu tombe sobre mim

em chuva ácida de desalento

eu não me importo que se saiba

que te amei

muito antes de me queimares a alma

publicado por AclaQue às 01:09 | link do post

adeus que me vou embora

levo nas mãos o vazio

de que sou feita

não posso mais ficar

eu desta terra não sou

adeus a quem por cá ficar

não escutem

as andorinhas mentirosas

que choram em vão

elas sabem porque

não me conseguem prender

pois há muito que voa

a morte no meu coração

livre

sou eu

que me vou embora

cheguei só

e só partirei

para um outro

lugar qualquer

vou

misturar-me

com a poeira do mundo

cansada de sonhar

enganada de tanto lutar

contra os moinhos

de ventos áridos

sonhos tornados

cinzas

tombadas

na terra infértil

tornada no meu solo

publicado por AclaQue às 23:50 | link do post

o tempo tem tempos

sem tempo

para o tempo

estou a asfixiar

preciso de um tempo

para o tempo

parado

no vácuo

cravado

no meu peito

a céu aberto

crateras

escavadas

pela fé

parem o planeta

deixem-me sair

preciso de um tempo

para recuperar

o folêgo

do tempo perfeito

na viagem

atribulada

aos tempos imperfeitos

caminhos secretos

armadilhados

de um tempo

com tempo

para os sonhos

cravados

no peito

quando o tempo

seguro

eram tempos

de paz

publicado por AclaQue às 12:49 | link do post

Os teus olhos são como o mar do norte. Umas vezes de uma calma assustadora, cheia de silêncios e de prazer. De outras, revoltosos, plenos de raiva e vida, dizias-me, ao acariciares os meus pés., depois de mos beijares.

 

Era sempre assim que as nossas noites terminavam, quando, cansada e completa, me ia embora, depois de misturamos até à exaustão o suor, as carícias e a esperança. E naquela noite, numa noite igual a tantas outras, percebi que apesar do teu amor, tinhamos chegado a um ponto ao qual eu não tencionava retornar.

 

Os teus gestos escondiam exigências que não podia responder. Por causa do mar do norte, por causa do suor, por causa das carícias. Eras um amante terno e solidário, disso não tenho dúvidas. Mas como explicar-te que não foram os meus olhos, mas sim a minha alma, umas vezes calma, outras, em revolta, que me exigiu partir?

publicado por AclaQue às 12:42 | link do post

Foge

à voz sibilina

que ecoa

da caverna sombria

onde só entra o medo

Foge

à prisão

dessa caverna

onde se escondem

os demónios

Foge

à boca selada

num uivo solto

sem poder

resgatar as sombras

e à dor

de encarar o sol

Foge

à tristeza

que inunda a alma

não te voltes

não olhes sequer para trás

persegue a tentação de ser

Foge

e trai o medo

publicado por AclaQue às 21:15 | link do post

( "Mãe e Filha" de Chidi Okoye )

 


quando te abraço

sou outra vez criança

suspensa do

azul do teu olhar

único porto de abrigo

sangue e amor

e toda a doçura e força

do mar

 

 

mãe,

os pesadelos chegaram

dá-me a tua mão

bebamos as lágrimas

sabem a tâmaras e a alecrim

o teu rosto, um sudário

e o azul único do teu olhar

o meu secreto altar

publicado por AclaQue às 18:40 | link do post
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